Conflitos de uma transferência erótica
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Talvez, uma das medidas possíveis de progresso em um processo analítico ou terapêutico seja a mudança nos sintomas ou as substituições escolhidas para sintomas antigos. Às vezes, uma mudança não parece uma melhora.
E, por acreditar nisso, usarei essa métrica para avaliar minha análise com meu último analista, M. Alguns sintomas mudaram e alguns permaneceram… Bom, entendo, também, que alguns desses que ficaram são suficientemente estruturais Como disse Clarice Lispector, "não se sabe qual é o defeito que sustenta seu edifício inteiro".
Quando conheci M. estava no meu limite. Minha última tentativa de análise se dava como uma forma de expiação antes do último grande ato. Havia gastado todo meu dinheiro, saúde e me consolava apenas com a ideia de cometer suicídio. Sentia não só que precisava, mas que devia a mim mesma, uma última tentativa de contar minha história e o que eu, até então, havia feito com o que fizeram de mim.
Como pode acontecer muito hoje em dia, com o fenômeno da "saúde mental em dia", acabamos encontrando figuras que nos chamam atenção em mídias sociais ou podcasts. O problema – se é que posso nomear como um problema –é que algo acontece com analistas e psicoterapeutas que resolvem criar um podcast ou ter uma página no Instagram, discutindo ou expondo algum tópico sobre qualquer coisa. Talvez, algo que devesse ocorrer no próprio – e somente – processo analítico, como a transferência. Não faço qualquer juízo de valores sobre isso ser bom ou ruim, mas foi algo que aconteceu comigo e continuo vendo acontecer. Acabamos indo meio "tranferenciados", de certa forma, para o divã ou análises on-line. No meu caso, eu simpatizei com M. não porque me identificava apenas com o que ele dizia, mas a forma que ele parecia olhar o sofrimento, de um modo, já me era algo familiar.
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Minha análise com M. durou um pouco menos de um ano e meio, com sua presença e ausência tornando-se um dilema do processo analítico. É claro que minha necessidade por uma “testemunha” e clamor por alguém que me entendesse – e compreendesse a forma com que sofro – vai muito mais longe do meu encontro com M. Minha conturbada (não) resolução edípica e adicção encontraram em M. uma morada. Conforme as sessões iam passando, inconscientemente na época, eu o transformava em minha nova fixação erótica e ia lidando com o transbordamento do estado em que me encontrava na época. Eu sentia que o acolhimento, calor e compreensão de M. eram ambos: uma entrega de todos meus desejos e medos numa tentativa de manter aquela relação e um apelo para que ele me ajudasse a interromper o padrão que vivenciara até ali.
Com quase três meses de análise, as sessões aumentaram de uma a duas vezes por semana e incluíam trocas de mensagens pelo e-mail, autorizadas por M. para que eu pudesse “transbordar” o que não tinha conseguido durante as sessões. Ao mesmo tempo que eu parecia não parar de jorrar “material analítico”, desenvolvi uma obsessão por M., na qual ele parecia corresponder com a mesma intensidade e, muitas vezes, apresentando uma sedução espelhada do que eu falava. Minha confissão de amor, que mais tarde vim a reconhecer como transferência erótica (ou minha transferência erótica que mais tarde pude reconhecer como amor) foram recebidas, no início, de forma mais sutil e, depois, de modos mais diretos como enactament dos próprios sentimentos de M.
Percebi que quanto mais M. passava a agir em cima do que ele mesmo demonstrava sentir, mais um fluxo ambíguo e decisório acontecia.. Quanto mais ele me mostrava que minhas tentativas de sedução funcionavam, mais desfigurada entre o “transbordar para me salvar” e o me “impeça disso” eu ficava. Mas, talvez, nessa torrente de idas e vindas só tenha se desenrolado e atuado uma situação que eu mesma, de forma inconsciente, solicitei porque, de alguma maneira, aquela relação me mantinha presente, existindo.
Minha solicitaçãonão era recente, vinha de um padrão de repetição e dificuldade, naquele limiar entre lidar com a realidade e uma frustração; muitas vezes agressivamente, de modo a “me manterpresente”. Assim como minha própria adicção tem certo fundo de procurar, não uma fuga ao prazer ou um lugar longe da dor, mas um anseio pela volta de uma dependência que me foi frustrada na infância.
M., dentro de suas limitações, não me ofereceu apenas um ambiente suficientemente bom, ele quis se tornar a mãe suficientemente boa na minha vida, em todos os aspectos dela. O que eu entendo, agora, é que é deveras muito mais poderoso o analista conter suas próprias necessidades dentro do processo analítico do que a obliteração para ceder às suas próprias necessidades.
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Quando Freud escreveu em uma de suas correspondências que a psicanálise é essencialmente uma cura por amor, não estava se referindo ao amor que seu analista pode vir a ter pelo paciente ou vice-versa, mas o amor que faltou ao paciente em algum momento de seu desenvolvimento. O potencial de cura existe mais na ressignificação dentro do processo analítico de entender sobre as imperfeições do amor que o paciente recebeu e entender como isso o moldou.
Acho importante destacar muitas realizações que tive na minha breve, porém intensa análise com M. Foi nesse processo que pude entender um pouco melhor o papel que desempenho dentro da minha relação familiar e com amigos, a forma que entendi sobre como buscar e obter amor, a maneira que minhas manifestações psicossomáticas se expressam e o papel importante que a psicanálise desempenha como forma de entendimento de sua própria história.
Uma das formas de entender o que é psicanálise é dada pelo psicanalista inglês Adam Phillips que diz: “a psicanálise é o que duas pessoas podem dizer uma a outra se elas concordarem em não fazer sexo”. E parece que eu e M. conseguimos fazer isso durante um bom tempo. Qual a chance de você poder ser brutalmente honesta e – quase – totalmente si mesma e ainda poder conversar sobre desejo, dentro outros tantos assuntos, com a pessoa que não só te entende e aceita, mas também deixa claro retribuir o desejo e compartilhar suas próprias inseguranças e questionamentos com você?
Era precisamente porque M. estava me ajudando de forma tão fundamental que nos momentos que ele quebrava e ultrapassava os limites acabava tornando o processo analítico um tanto desconcertante e doloroso.
No livro de Karen Maroda, A Vulnerabilidade do Analista - teoria e prática, ela argumenta sobre a impossibilidade das escolhas e interpretações do analista estarem intrinsecamente ligadas às experiências infantis dos mesmos; e daí a necessidade da análise e supervisão. Talvez, minhas experiências e a forma como encaro o sofrimento eram próximas e similares demais para M. Talvez,ele tivesse encontrado em mim alguém que pudesse reviver seu passado e ressignificar suas próprias questões. O que vim a vivenciar no final de nossa análise – e posterior amizade – é que quando não entendemos, ignoramos ou fazemos pouco caso das razões pelas quais decidimos virar analistas, essa "profissão impossível", inevitavelmente, faz das pessoas ao nosso redor, em especial os pacientes, um mecanismo de reviver ou tentar dar sentido à sua própria existência. O que pode ser muito perigoso e nocivo.
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O meu problema com limites – seja de ultrapassá-los ou de simplesmente não os ter - foi algo anunciado em diversas de nossas conversas, mas acho que M. já estava envolvido o suficiente para ignorar essa parte. Se alguém não consegue estabelecer qualquer limite ou ultrapassá-los rápido demais para afastar qualquer mal-estar, acaba sendo uma abertura tentadora quando sua contratransferência erótica ultrapassa o papel do analista. Seja passar horas depois do seu tempo de sessão, indicar e ler os livros e filmes recomendados, dizer o nome de seu perfume ou simplesmente confessar o quão feliz se está por ter alguém assim como analisanda. Momentos vulneráveis dos quais eu, na posição de analisanda, me questionava “será que ele sabe o que está fazendo?” e que eram logo obscurecidos com a necessidade de ser entendida ou pelo menos escutada.
Quando o tempo das sessões se estendiam ou intensificavam ainda mais eu sentia algo eletrizante, confuso e, algumas vezes, agonizante. Quando falávamos dos nossos desejos um pelo outro, eu chegava a acreditar que estava realmente apaixonada (ainda é difícil distinguir do que foi “real” ou não e, talvez, seja pela negação de M. sobre o que estava acontecendo e o que me fazia, paradoxalmente, acreditar cada vez menos nele). Teve uma sessão na qual ele me contou um sonho que tivera comigo, eu fiquei paralisada na tentativa de interpretar o sonho – como ele me solicitara – excitada por ele ter sonhado comigo e, ao mesmo tempo, tentando entender qual linha ou barreira estava sendo ultrapassada.
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Nos meus estudos e leituras sobre psicanálise e algumas trocas que fiz com outras pessoas, entendi que não é completamente errado um analista reconhecer e dar validade para algo como a transferência erótica. É uma premissa fundamental na relação psicanalítica e que pode ajudar a revelar padrões de comportamento sobre os quais tal paciente costuma agir (act out). Seria algo do tipo “vamos entender o que está acontecendo aqui”, ao invés de agir em cima da contratransferência ou simplesmente ignorar e não dar qualquer validade para o que o paciente está falando ou fazendo, o que, de fato, não seria bom para nenhuma das partes. Quando há esse tipo de questionamento, o analista não só valida o que foi dito, mas consegue fazer um manejo que o leva a entender como isso se revela na vida do paciente quando ele está com outras pessoas. Mas, ao agir em cima, M. fez com que meu padrão de não ter limites ou de ultrapassar todos, se repetisse.
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O final da história foi como uma volta ao começo da análise. Algumas de minhas queixas iniciais foram esbravejadas por M., em tom acusatório, me fazendo questionar, novamente, se aquilo tudo foi ou não real.
Eu nunca fiquei. Nunca. Em relações, situações-problema, agia como se o botão da indiferença fosse meu superpoder durante muitos anos. Talvez, sempre foi essa uma defesa contra o medo do abandono. Isso é algo que ainda estou descobrindo. Mas foi diferente com M. Ele insistiu para que eu ficasse por tanto tempo e, em diversos momentos, forçou sua estadia. Eu “quebrei” no momento que ele anunciou que não ficaria, que naquele momento sua vida privada poderia estar correndo um risco se prolongasse aquilo. E por minha vez, o que me fez ir embora de fato foi quando ele me falou: “eu te dei o que sua família nunca te deu”. Percebi que ele estava revivendo em mim sua história infantil-arcaica de ser o Messias que ele tanto quis ser quando criança para evitar o que ele me relatou que aconteceu em sua vida.
Após ler, reler e apagar este texto inúmeras vezes, eu decidi, enfim, escrevê-lo. Me pareceu, por algum tempo, que essas palavras seriam como “um ato de vingança” contra M. No entanto, entendo que ele estava despreparado e mal equipado na época para lidar com o que havia entre nós. Espero que esse relato dessa experiência extremamente íntima e difícil possa ajudar alguém que esteja passando por isso.
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